Tag Archives: biodiversity

Idai & Kenneth:

IMG-20190628-WA0014

Mudanças climáticas sentidas na pele”

Há já alguns anos que é quase impossível falar sobre mudanças climáticas sem mencionar Moçambique. Isto porque, a nível global, somos um dos países mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas – facto este que nos é confirmado por indicadores como a alteração de padrões de precipitação e temperatura e o consequente aumento na incidência de calamidades “naturais”.

A crescente intensidade e frequência de eventos climáticos extremos – como cheias e inundações, secas, tempestades de vento (incluindo ciclones tropicais) e a subida do nível das águas do mar – registados nos últimos anos, são manifestação clara das alterações climáticas, e só têm demonstrado o quão vulnerável o país é. Em virtude desses eventos climáticos extremos, Moçambique tem se debatido com a perda de vidas humanas, uma recorrente destruição de infraestruturas socioeconómicas, enormes perdas de produtividade agrícola e uma avultada degradação ambiental causada por uma erosão acelerada e por intrusão salina, entre outros.

IMG-20190628-WA0009

Não só em Moçambique mas a nível global, os últimos anos têm sido marcados por inesperados eventos climáticos extremos, tais como a ocorrência de ondas de calor intenso, secas cíclicas, inundações, cheias e ciclones tropicais de magnitudes nunca antes registadas e com impactos devastadores. Em Moçambique, o destaque vai para a recente ocorrência dos ciclones Idai e Kenneth que afectaram o país de forma assoladora, com impactos enormes nas províncias de Sofala e Cabo Delgado onde, respectivamente, entraram no continente. Estranhamente, os dois ciclones ocorreram no espaço de 2 meses, tendo o Idai ocorrido em Março e o Kenneth em Abril do corrente ano. Estes dois eventos climáticos extremos foram considerados os piores ciclones tropicais registados a nível do continente Africano e de todo o Hemisfério Sul, tendo causado a morte de mais de 1000 pessoas e deixado centenas de outras desaparecidas, bem como milhares de casas e outras infraestruturas sociais destruídas.

IMG_20170406_105616

Embora Idai e Kenneth tenham incidido principalmente nas duas províncias supracitadas, estes ciclones também se fizeram sentir tanto em outras províncias de Moçambique, como nos países vizinhos da região como o Malawi, o Zimbabwe ou a África do Sul. Sem quaisquer dúvidas, eles são indício inequívoco das mudanças climáticas.

O Ciclone Idai resultou de uma depressão tropical formada junto à costa de Moçambique no dia 4 de Março, tendo atingido terra e enfraquecido no final desse mesmo dia. Foi após esse aparente enfraquecimento que, volvidos alguns dias, voltou a intensificar-se – atingindo a sua intensidade máxima a 14 de Março, com ventos de cerca de 195 km/h e uma pressão central mínima de 940 hPa. Subsequentemente, perde força ao reaproximar-se da costa e, no dia 15 de Março, toca terra firme perto da Beira, com a classificação de ciclone tropical intenso. O resultado foi calamitoso: perda de vidas humanas, destruição de várias infraestruturas, morte de milhares de animais e destruição de diversos outros meios de subsistência, afectando mais de um milhão de pessoas.

Dois meses depois, embora significativamente menos devastador que o seu antecessor, registando ventos de 215 km/h, o Ciclone Kenneth torna-se o ciclone tropical mais intenso a atingir Moçambique.

IMG_20170406_100749

Os dois eventos, caracterizados por ventos fortes e chuvas torrenciais que causaram graves inundações, afectaram cerca de 3 milhões de pessoas de uma região compreendida por 4 países: Moçambique, Malawi, Zimbabwe e Tanzânia. A cidade da Beira foi a mais afectada, sendo que mais de 90% da cidade foi destruída pelo Idai, considerado o mais calamitoso ciclone do século. Sabe-se que só em Moçambique, as inundações causadas por estas depressões tropicais, mataram e feriram centenas de pessoas, tendo igualmente destruído centenas de milhares de casas, hospitais, salas de aulas, pontes e estradas. As inundações devastaram ainda milhares de hectares de culturas alimentares. Estima-se que serão necessários um pouco mais de 3 bilhões de dólares americanos em ajuda humanitária, incluindo para a reconstrução das infraestruturas destruídas por conta do ciclone nas províncias de Sofala e Cabo Delgado.

Apesar dos dados do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) mostrarem haver registo da ocorrência de calamidades similares às dos últimos anos nas décadas de 80, 90 e 2000, o diferencial na presente década é o facto destas calamidades estarem a ocorrer com maior frequência e intensidade. Os ciclones Idai e Kenneth e seus impactos são um exemplo claro disso e prova de que as mudanças climáticas são uma realidade.

Estudos mostram ainda que a exposição ao risco dos desastres naturais em Moçambique poderá aumentar de forma significativa ao longo dos próximos anos como resultado das mudanças climáticas, sendo que o clima será ainda mais extremo, com períodos de seca mais quentes e longos, e com chuvas mais imprevisíveis, havendo riscos ainda mais altos de fracas colheitas. Estima-se igualmente que aumente a proporção dos ciclones tropicais intensos e prevê-se que Moçambique passe por mudanças em termos de disponibilidade de água, e que até 2050 grande parte do país sofra maior pressão por falta de água (devido à procura aumentada do recurso, por um lado, e à redução das chuvas, por outro), algo que já se sente actualmente, sendo que o abastecimento de água é condicionado, pois o seu fornecimento é feito apenas em regime intercalado em quase todo território nacional. Ficar 24 horas sem água não é incomum para a maioria dos moçambicanos, o que torna a vida das pessoas – sobretudo de famílias de baixa renda – ainda mais dura.

Este cenário retrata o quão urgente é a tomada de decisões e medidas que visem a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, pois, tendo em conta a tendência e a previsão de aumento de tais eventos extremos e tendo em conta que Moçambique é um dos países mais vulneráveis aos mesmos, haverá um momento em que não poderemos mais nos adaptar a estas mudanças. Isto, caso não sejam tomadas medidas que visem a redução drástica de emissões, com vista a garantir que o aumento da temperatura média global não ultrapasse os 1,5ºC, conforme recomendam os vários estudos científicos e projecções.

Importa referir que o aumento (em intensidade e frequência) de eventos climáticos extremos como ciclones tropicais, cheias, inundações e secas, associado a fracas políticas na área de mudanças climáticas, irá aumentar significativamente a vulnerabilidade da população devido à redução de activos que garantem a sua subsistência, tais como: serviços de saúde e saneamento, abastecimento de água e infraestruturas. Tal afectará também a produção de alimentos, minando assim a possibilidade de melhoramento das condições de vida da maioria do moçambicanos.

Mais, a magnitude dos impactos das mudanças climáticas sobre Moçambique (conforme nos provaram o Idai e o Kenneth) dependerá da capacidade do país em termos de mitigação e adaptação. Por seu turno, isto dependerá em grande parte do curso de desenvolvimento socioeconómico e tecnológico que o país seguirá e do quadro de planificação para os próximos 10 anos. Contudo, a vulnerabilidade do país só aumenta, pois o Governo, ao invés de tomar medidas que visem a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, apenas concentra o seu limitado esforço em acções de adaptação, por um lado, e promove acções que contribuem para o aumento da emissão de gases de efeito de estufa – tais como a exploração e queima de combustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo) – ignorando os impactos que estas têm sobre o clima, por outro. A queima de combustíveis fósseis é a principal causa da crise climática e planetária que assola o mundo.

IMG_20170406_095306

Neste momento, precisamos com urgência de uma resposta efectiva por parte do governo, de modo a resolver o problema das mudanças climáticas e seus impactos, ou pelo menos reduzir a vulnerabilidade do país. E para o efeito, é necessário que haja um foco institucional sistemático sobre esta matéria. Considerando os impactos que as mudanças climáticas terão na população, nos ecossistemas e na economia, uma resposta institucional requererá uma revisão do quadro legal que determine os papéis e as competências, incluindo a informação. À medida que os efeitos das mudanças climáticas se intensificam, pode-se esperar que essas condições climáticas extremas nos visitem com mais frequência.

A devastação causada pelos dois ciclones é mais um alerta, não só para Moçambique, mas para que o mundo inteiro implemente medidas ambiciosas de mitigação das mudanças climáticas, com vista a uma transição energética radical, por forma a reduzir de forma drástica a emissão dos gases de efeito de estufa.

É fundamental que os planificadores e tomadores de decisão, tanto a nível nacional como sectorial, sejam capazes de fazer uma análise do nosso grau de vulnerabilidade à variabilidade climática, dadas as actuais estratégias de desenvolvimento e programas sectoriais; que analisem de que forma estes programas impactam sobre as vulnerabilidades da população e do país; e que examinem as opções para a minimização dos riscos e a melhoria das capacidades de resposta.

_MG_7421.JPG

Estudos mostram ainda que, se as tendências de subida de temperatura média global que se verificam hoje prevalecerem nos próximos anos – o que é mais do que provável – até 2050 poderá registar-se um aumento de 2ºC à média global. Para Moçambique, isso significará um aumento de cerca de 4ºC. Esta subida de temperatura, por sua vez, significará precipitação pouco frequente mas em volumes muito elevados. Ou seja, teremos chuvas de maior intensidade e com muito poder destrutivo por um lado, e secas mais intensas, mais frequentes e extensas, por outro. Para mais, Moçambique tornar-se-á mais susceptível a ciclones, que se prevê que venham a ser mais frequentes, intensos e consequentemente mais destrutivos.

O facto da cidade da Beira localizar-se na costa e estar abaixo do nível das águas do mar é, por si só, um garante de que, em caso de ciclones, os danos serão indubitavelmente mais devastadores. As mudanças climáticas têm vindo a agravar as inundações costeiras aquando da ocorrência de ciclones. Normalmente, os danos causados pelos ciclones tropicais vêm de ventos excessivamente fortes, que danificam directamente a infraestrutura construída e o ambiente natural; e de inundações costeiras causadas por tempestades e chuvas fortes que frequentemente as acompanham.

Devido às mudanças climáticas, as tempestades têm ocorrido numa atmosfera mais energética e carregada de humidade, o que propicia o seu nível de destruição e, consequentemente, aumenta os seus custos sociais. Além de causarem danos a propriedades, infraestruturas e de ceifarem vidas humanas, os ciclones tropicais também afectam sobremaneira a saúde das pessoas, aumentando o risco de eclosão de doenças como a cólera e malária e causando ainda doenças de foro psicológico. Após ciclones como os que afectaram Moçambique no primeiro semestre deste ano, é normal que sobreviventes e outros afectados venham a padecer de depressões, fruto de stress emocional, o que sem dúvida afecta negativamente a capacidade de resiliência de indivíduos e comunidades afectadas, colocando mais carga física, emocional e financeira nos seus esforços de recuperação.

Segundo o secretário-geral da ONU António Guterres, que visitou o país recentemente, “Moçambique tem direito a exigir da comunidade internacional solidariedade e apoio em caso de desastres naturais”. Guterres apelou igualmente que a comunidade internacional prestasse mais apoio ao país e concretizasse as ajudas prometidas o mais rápido possível, sublinhando que os fundos postos à disposição de Moçambique, por si só, não chegam para suportar a reconstrução que deve ser feita.

IMG_7754.JPG

Neste sentido e reconhecendo a solidariedade e o apoio já recebido da comunidade internacional, é imperioso que os países ricos (principais emissores de gases de efeito de estufa) façam a parte que justamente lhes compete para resolver o problema das mudanças climáticas. Afinal, este problema é inegável resultado do seu egoísta trajecto rumo ao progresso económico e “desenvolvimento” de que hoje disfrutam. Que paguem a sua dívida climática para que os países mais pobres e em vias de desenvolvimento – que apesar de serem responsáveis por ínfima parte das emissões que estão a despoletar esta mudança climática são, por triste ironia, os mais vulneráveis às suas consequências – possam aumentar a sua capacidade de resposta, adaptação e resiliência a eventos climáticos extremos. E sem condicionalismos, pois não se trata de um empréstimo, mas sim do pagamento ao resto do planeta da dívida que contraíram em seu nome.

IMG_7708.JPG

Tagged , , , , , , , , ,

Under Water

Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

The Green Deserts of our Future

Monoculture forest plantations are fast increasing in developing countries and although this growth is fuelled by low production aDSC_0212nd labour costs, carbon sequestration for the developed, and government incentives, these plantations have serious social and environmental impacts.  Mozambique is no exception, here plantations are springing up rapidly and the government is keen to attract investment into these plantations for paper production.

On the 6th of August 2012 JA! participated in a seminar on ‘Forest Plantations and Industry in Niassa’.  The seminar took place at the VIP Hotel, Maputo and included the presence of a large number of individuals of the Forestry and Agriculture sectors.  The seminar was organised by the Niassa Forest Association together with the State Department of Land and Forestry and presided over by the Minister of Agriculture.  Mozambique is being transformed into a major global producer and the successful examples of South Africa, Uruguay, and Chile were mentioned.

The first presentation of the seminar was the “Evaluation of the Forest Plantations in Niassa Province 2005-2012” wherein it was mentioned that prior to 2005 there was no investment in tree plantations and after 2005 investment into these plantations surged leading to the current occupation of 165.772.80 hectares of land by plantations of which 32.409.00 hectares constitutes Pine and Eucalyptus plantations.  Some social and environmental problems experienced due to this type of investment were recognised as being caused by the enormous demand for land, waves of investment, poorly conducted community consults, and land grabbing cases.  All these problems were treated as if they had either been resolved or were in the process of being resolved, however with every passing day more and more serious incidents of land grabbing continue to be reported here. 

In other meetings the government’s desperate and blind desire to attract more and more investment into monoculture tree plantations has been clear.  This is evidenced by the speed with which the Regulation of Forest Plantations was proposed and approved while other legal instruments await years and years for approval such as the Law of Popular Action and the Law of Conservation Areas to name only those related to the environment.  The land for these DSC_0213plantations which is often described as ‘degraded’ is not degraded in the eyes of local populations who leave tracts of land fallow for revitalisation and future use nor is it degraded in the eyes of conservationists who see great importance in conserving the natural bush for biodiversity.  However others, interested in the implantation of these fake forests, are quick to regard this land as degraded.

The seminar left us with more questions than answers.  Who do the processes of community consult actually serve?  The community does not have the right to veto any project, they could be against it, they could protest, but the state has the final word and the state has decided.  What is the purpose of the Environmental Impact Assessment (EIA) study when the mitigation measures set out to address the impacts of a project are only in some cases possible or realistic?  This kind of situation leaves countries like Mozambique in a very difficult position as they have no way of rectifying a situation made difficult by the plantations and the effect their implantation has on rural farming communities and their environment.  The state gives the go ahead to projects that do not even have completed EIAs required by law. 

At the end of the day, the issue is that there is no clear admittance of the distinction between a natural forest and a monoculture tree plantation or ‘forest plantation’.  This is a serious problem because many would point to the idea that a tree plantation contributes to conservation but the impacts of monoculture tree plantations on the biodiversity of an ecosystem are large.  Consider for a moment what a tree plantation looks like; it is densely planted with only one (or a couple) tree variety.  This impacts the pollinators and other animals dependant on the natural vegetation for their survival (to read more about this research on Nature.com) and the sustainability of the natural forest.  The diversity of tree species in natural forests aids this survival whereas monoculture tree plantations leave no room for it.  It is also important to note that many of the tree monocultures like Pine and Eucalyptus are not indigenous to Mozambique and their impact on local species and water must be taken into consideration.  In Mpumalanga, South Africa, Philip Owen founder of Geasphere describes how the Pine and Eucalyptus plantations have dried up the groundwater, streams and rivers there. 

DSC_0218Tree plantations are a form of agriculture, they are not forests in any way as they have been shamefully described by companies in an attempt to take advantage of the growing concern of deforestation which is a current and ever-increasing issue.  These tree plantations are food deserts, they yield nothing in terms of sustenance, and whatever species are able to survive in these plantations are eradicated as pests. 

These plantations are green deserts.  They offer no sustenance, they offer no reprieve from deforestation or the loss of natural forests and the species therein.  They have been described as being void of life – that not one animal or bird can be heard within these fake forests.  They emit the silence of lifelessness.  They are quite simply wood farms of invasive tree species which dry up water sources and are implanted on community lands labelled as degraded.  This cannot be regarded as a sustainable practise for our future.

 

For more information on plantations vs. natural forests please follow these links:

 

‘Green desert’ monoculture forests spreading in Africa and South America

http://www.guardian.co.uk/environment/2011/sep/26/monoculture-forests-africa-south-america

 

Geasphere Mozambique – Information about the Mozambican experience

http://www.geasphere.co.za/mozambique.htm

 

“Monoculture tree plantations are “green deserts” not forests, say activists.”  http://news.mongabay.com/2008/0919-plantations_hance.html?menu=Select+a+News+Topic

 

Plantation vs. natural forest: Matrix quality determines pollinator abundance in crop fields (Scientific Report from Nature.com) http://www.nature.com/srep/2011/111028/srep00132/full/srep00132.html

Tagged , , , , , , , , ,
%d bloggers like this: